6 de janeiro de 2026
rejane 2

As dores de Maria
Ainda um toco de gente, começou a perceber que tudo no mundo atendia por mais de um nome: automóvel era bi-bi, cachorro era au-au e madrinha, dinda. E ela? Apenas Maria das Dores, desde a barriga da mãe. A menina foi crescendo, crescendo e nada. Fizesse travessura, tirasse nota boa, “Maria das Doooores”, diziam. Neném, Dazinha, Dodô… até Das Dores ela comemoraria. Não disfarçava a inveja dos chamados vindos da casa da vizinha Valéria. “Hora do almoço, Leca! Vem tomar banho, Leca!”. Havia naquilo uma doçura mais doce do que o melhor pudim de leite dos almoços de domingo.
Murcha em seu silêncio, Maria das Dores passou a roubar para si outros sentires. Outras dores.
O cachorro preso à corrente.
O sol borrado por nuvens.
O frango do goleiro na Copa do Mundo.
E chorava, chorava.
-Maria das Dores, o que você tem, filha?
-Dói – respondia, distraída a garimpar pesares alheios.
A goiaba que se esborrachou no chão.
A meia perdida do par.
A minhoca ciscada pelo sabiá-laranjeira.
E chorava, chorava.
O coração da mãe foi se espremendo tanto, mas tanto, que agora vazava lágrimas também. E a água brotando da mãe fazia as dores de Maria doerem ainda mais.
Feito unha ​​​encravada.
Carne presa no aparelho fixo.
​Ou mosquito-borrachudo grudado na canela​.​
E chorava, chorava
Num suspiro, a mãe sentou a filha no colo e encostou a cabeça da menina no peito. “TUM-TUM-TUM”.
O bate-bate do coração deu um susto danado no cinza da menina. E foi quando o calor laranja do sol, em cumplicidade com alguma fresta da janela, iluminou o aconchego mais tutti-frutti que poderia caber dentro de um abraço.
-Vem cá, Maria das Dores – disse a mãe -, vem cá, meu Tum-tum