Tô péssima, mas tô linda: quando a aparência atropela a saúde mental

Psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo(FMUSP), Dra. Carmita Abdo é uma das palestrantes do 22º Brain, Behavior and Emotions, congresso científico na área da Neurociência. Na entrevista que segue, a especialista comenta situações em que a aparência atropela a saúde mental, tema inclusive da aula que ministrará em Florianópolis.

  1. As redes sociais são uma vitrine da bioidentidade de seus usuários. Isto, de certa forma, gera uma “obrigação” para que as postagens sempre sejam belas e felizes?

O mundo das mídias sociais “parece” habitado por pessoas que têm corpos, vidas e relacionamentos perfeitos.

Devido à pandemia de COVID-19, houve crescimento exponencial de reuniões virtuais, aprendizado online e aumento do uso de mídia social após 2020. A exposição nas redes sociais cresceu significativamente, levando os usuários a constantemente sua estética e encontrar falhas na aparência virtual percebida.  O tempo gasto nas mídias sociais aumenta a insatisfação corporal e pode desencadear preocupações dismórficas e pensamentos obsessivos em relação à aparência percebida.

Estudos mostram que mesmo a exposição mínima nas mídias pode mudar a ideia de atratividade de uma pessoa.

O termo “FOMO” — medo de perder algo ou de ficar de fora — foi definido como uma apreensão generalizada de que outras pessoas possam estar tendo experiências gratificantes das quais “eu não participo”.

A teoria da objetificação é aplicável para entender a relação entre mídia social e imagem corporal de mulheres. Segundo essa teoria, a sociedade encoraja as mulheres jovens a se auto-objetivarem, avaliando-se com base em sua aparência e vendo seus corpos como objetos para o prazer.

O Instagram, por exemplo, oferece um fluxo constante de postagens que priorizam imagens com legendas, que geralmente retratam ideais de beleza; portanto, promovendo a auto-objetivação. Além disso, há evidências de que o Instagram possa ter impacto maior na imagem corporal e no humor de mulheres jovens do que outras plataformas de mídia social. Isso é particularmente preocupante porque o uso do Instagram é alto entre mulheres jovens, com 67% dos usuários na faixa etária de 18 a 29 anos.

2.    Os filtros oferecidos por algumas redes sociais ajudam na distorção da imagem, ou seja, a pessoa pode acreditar que ela deva ser sempre daquele jeito com pele e rosto perfeitos?
As pessoas selecionam uma foto ideal como imagem de perfil para dar impressão positiva, a fim de atingir o objetivo de ser popular. O avanço da tecnologia da fotografia digital permite que as fotos sejam manipuladas, embelezando as pessoas, conforme elas desejam ser percebidas.

Comparações com pessoas conhecidas podem aumentar os potenciais efeitos prejudiciais da mídia social sobre a imagem corporal de adolescentes, fornecendo imagens editadas (manipuladas) que retratam um padrão de beleza inatingível.

A comparação social com essas imagens idealizadas pode aumentar a diferença percebida entre sua aparência ideal e a real, resultando em insatisfação com o corpo.

Estudo experimental com mulheres de 17 a 25 anos demonstrou humor mais negativo após apenas 10 minutos de navegação em sua conta do Facebook em comparação com aquelas que navegaram em um site de controle com aparências neutras. As participantes com alta tendência de comparação de aparências relataram maior desejo de mudar a aparência de seu rosto, cabelo ou pele, após passar um tempo no Facebook, em comparação com aquelas que navegaram no site de controle.

Não apenas o tempo de exposição às mídias sociais, mas o tempo gasto na edição de imagens e no uso de filtros de videoconferência podem desempenhar um papel na insatisfação corporal: maiores preocupações com o corpo e a alimentação, levando a maior uso da mídia e internalização do ideal de magreza.

 Existem estatísticas de aumento de doenças mentais relacionadas à aparência?
A depressão está aumentando, particularmente entre as meninas. Pesquisadores sugerem que o aumento de doenças mentais está, pelo menos em parte, relacionado ao crescimento do uso de mídias sociais entre adolescentes e jovens adultos. Com 13% dos jovens de 12 a 17 anos relatando depressão e 32% relatando ansiedade, a doença mental é uma preocupação para a saúde do adolescente. É uma preocupação também para os adultos jovens, já que 25% deles de 18 a 25 anos relatam ter algum tipo de doença mental.

No Reno Unido, estudo com quase 11 mil adolescentes mostrou que mais horas de acesso às mídias sociais estão relacionadas à insatisfação com o peso corporal e infelicidade com a aparência (mais de 5 horas há 31% de maior probabilidade de insatisfação e 8% maior infelicidade com a aparência do que 1 a 3 horas). Por sua vez, a imagem corporal foi associada a sintomas depressivos tanto diretamente quanto indiretamente, por baixa autoestima.

4.    Os adolescentes são as principais vítimas dessa armadilha da perfeição?

A imagem corporal é um problema maior para os jovens, tanto homens quanto mulheres, mas, principalmente, entre mulheres na adolescência e jovens adultas (até nove em cada 10 afirmam que estão infelizes com seu corpo).

Meninas que acessam as mídias sociais expressam maior desejo de mudar sua aparência, como rosto, cabelo e/ou pele, e fazer cirurgia estética para ter melhor aparência nas fotos (muitas vezes cirurgias invasivas e desnecessárias). Cerca de 70% dos jovens de 18 a 24 anos considerariam fazer um procedimento cirúrgico cosmético.

O uso do Instagram tem sido apontado como fator de depressão, baixa autoestima, ansiedade com a aparência e insatisfação corporal entre as mulheres, principalmente quando expostas a imagens de beleza e fitness.

O uso frequente de redes sociais é também um fator de risco potencial no desenvolvimento de sintomas de transtorno dismórfico corporal (dismorfia do Zoom ou dismorfia da Selfie).

5.    Quais os sinais para identificar o transtorno mental associado à aparência?

O transtorno dismórfico corporal (TDC) é um transtorno psiquiátrico que pode ser influenciado por mudanças nas práticas de beleza. Pacientes com TDC têm preocupação extrema com defeitos físicos pessoais que não são percebidos pelos outros e podem levar a graves prejuízos na realização social e profissional.  Está associado a várias comorbidades, principalmente a outros transtornos psiquiátricos: transtorno depressivo, transtorno de abuso de substâncias, fobia social, transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos alimentares.

O uso de mídias sociais aumenta a prevalência de condições psiquiátricas, como depressão, insatisfação com a imagem corporal e dependência de redes sociais. A ideação suicida foi descrita por 57,8% dos pacientes com TDC, com 2,6% deles tentando suicídio a cada ano.

6.    Identificados os sinais, quais as orientações?

Curiosamente, a prevalência de transtorno dismórfico corporal (TDC) , por ex., é muito maior em ambientes não psiquiátricos do que em psiquiátricos.  De acordo com uma revisão sistemática, cerca de 1,9% dos adultos são diagnosticados com TDC na comunidade, mas esse percentual aumenta para 5,8% a 7,4% em serviços psiquiátricos e aumenta ainda mais (9,2% a 20,1%) em serviços de tratamentos cosméticos. Muitas vezes falta a consciência do paciente em relação às suas preocupações. Essas crenças podem ser de natureza delirante (32% a 38% em pacientes com TDC).
Dada a gravidade acima descrita, orienta-se encaminhamento para avaliação especializada .

7. Como preencher o “vazio” de se descobrir uma pessoa “comum”, sem se esconder por de trás de algum artifício (filtro, maquiagem, entre outros)?

Comportamentos compensatórios são utilizados para mascarar as deficiências percebidas nas mídias sociais: maquiagem em excesso, aplicação de filtros, uso de roupas caras e joias extravagantes, mudanças frequentes no penteado e na cor do cabelo.

Por outro lado, o movimento “body positive” (BoPo) tem se tornado cada vez mais popular no Instagram, desafiando a superabundância de postagens que promovem o ideal de magreza. Esse movimento busca apresentar a diversidade de aparência, incluindo mulheres com corpos de tamanhos, formas, cores e características variados. Inclui mulheres com corpos médios e grandes e imagens não editadas que não eliminam características como estrias, rugas, dobras no abdômen, celulite e manchas na pele.  As imagens positivas do corpo e as postagens que as acompanham normalmente transmitem mensagens de libertação pessoal, incluindo amar, aceitar e respeitar a aparência e a função de todos os corpos, e ativismo relacionado à mudança sistêmica, como desafiar a discriminação do tamanho da roupa e o estigma do peso.

A visualização de tais postagens tem o potencial de micro intervenções, promovendo assim imagem corporal positiva nos usuários do Instagram que as visualizam.

Nos casos mais graves, médicos podem discutir com os adolescentes e suas famílias os riscos conhecidos do uso de mídias sociais. A comunicação com adolescentes é mais eficaz no contexto de uma aliança terapêutica aberta e sem julgamento, despertando confiança e oferecendo inclusão e autonomia. Incentivar os pais a se envolverem proativamente na limitação do uso de smartphones e mídias sociais por crianças e adolescentes pode ser útil (1 a 2 horas diárias é o limite).

Pacientes com sintomas sugestivos de TDC geralmente se apresentam em consultórios de cuidados primários ou clínicas especializadas, como dermatologia ou cirurgia plástica. É importante que esses profissionais reconheçam e encaminhem esses pacientes para avaliação especializada.